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Cada Um de Nós é um Universo: O Portal que Somos Uns para os Outros

Foto do escritor: Francisco Setter
Francisco Setter
18 de ago.
3 min de leitura

Há uma frase que sempre me acompanha e que hoje se tornou a lente pela qual enxergo cada encontro: somos universos inteiros caminhando lado a lado, e cada relação humana é um portal. Não um portal para o outro — mas um portal para nós mesmos.

No meu livro Existir sem fim, explorei essa ideia sob diversos ângulos, e ela continua a se revelar em camadas cada vez mais profundas. Porque a verdade é que não existe encontro casual. Não existe relação "sem importância". Cada pessoa que cruza o nosso caminho — por um segundo, por um ano, por uma vida inteira — nos oferece um espelho. E é nesse espelho que temos a chance de nos reconhecer.


Pense no admirador de uma rede social. Aquele que curte suas publicações, que comenta, que talvez nunca tenha trocado uma palavra real com você. Parece superficial, não é? Mas observe: o que aquela pessoa reflete em você? Que necessidade de reconhecimento ela toca? Que vaidade, que insegurança, que alegria de ser visto?

Pense no espectador de uma palestra. Alguém que te ouve por uma hora e depois vai embora. O que ele desperta em você? O desejo de aprovação? O medo do julgamento? A vontade genuína de servir? A plateia é um espelho gigante, e cada olhar fixo em você devolve uma pergunta silenciosa: quem você é quando está sendo observado?

E então chegamos aos vínculos mais profundos — as amizades que atravessam décadas, os laços familiares que carregamos no sangue e na alma. Aqui o espelho é implacável. Porque é justamente quem amamos que tem o poder de nos mostrar as partes de nós que preferiríamos não ver.


O espelho do julgamento do ego


Aqui está o ponto que mais me fascina: tudo o que nos incomoda no outro é um convite a olhar para dentro.

Quando julgamos, quando criticamos, quando sentimos aquela pontada de irritação diante de alguém — não estamos vendo a pessoa. Estamos vendo a nossa própria projeção. O ego, essa voz que vive da separação e do medo, usa o outro como tela para desenhar aquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos.

O admirador que parece "rastejar" reflete nosso próprio medo de não ser suficiente. O espectador indiferente reflete nossa necessidade de validação. O amigo que nos decepciona reflete nossa expectativa de perfeição. O familiar que nos tira do sério reflete a ferida que ainda não cicatrizou.

Não é uma acusação. É um presente.

Porque se cada relação é um espelho, então toda relação é uma oportunidade de libertação. Quando reconheço que o incômodo que sinto diante do outro fala mais de mim do que dele, eu recupero o poder. Deixo de ser vítima das circunstâncias e me torno observador consciente do meu próprio universo.


O portal se abre quando deixamos de julgar


Foi em Existir sem fim que compreendi a profundidade dessa passagem: o outro não existe para me completar, nem para me ferir, nem para me salvar. O outro existe para me mostrar. E eu existo para mostrar a ele.

Quando atravessamos o portal — quando deixamos de ver o outro como inimigo, rival, admirador ou expectador, e passamos a vê-lo como um universo inteiro, tão vasto e misterioso quanto o nosso — algo se transforma. O julgamento dá lugar à curiosidade. O medo dá lugar à compaixão. A separação dá lugar à unidade.

Porque no fundo, todos nós somos a mesma consciência experimentando a si mesma através de infinitas perspectivas. Cada relação é um encontro do universo consigo mesmo. E cada vez que escolhemos o amor em vez do julgamento, abrimos um portal não apenas para o outro — mas para a nossa própria essência.


Um convite


Da próxima vez que alguém cruzar o seu caminho — seja um desconhecido nas redes, um rosto na plateia, um amigo de longa data ou um familiar que te desafia — pergunte-se: o que esse espelho está me mostrando?

Não para se culpar. Não para se corrigir com dureza. Mas para se reconhecer. Porque é assim que o universo se revela a nós: um encontro de cada vez, um espelho de cada vez, um portal de cada vez.

Somos todos universos. E cada relação é a porta de entrada para o nosso próprio infinito.


 
 
 

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